11° fascículo - Biotecnologia, promessas e polêmicas
Um biólogo, duas surpresas

Biossegurança, lei ainda no papel
Por Venerando S. Oliveira
Sancionada em 24 de março de 2005, a Lei de Biossegurança cria o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) e reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. A aprovação da lei foi acelerada pela necessidade de regulamentar dois assuntos polêmicos e em estágios já bastante adiantados: as células-tronco e os organismos geneticamente modificados (OGMs). Pesquisas com células-tronco mostram resultados promissores no tratamento de câncer e doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer.
Por utilizar embriões
de onde são retiradas as células,
essas pesquisas sofrem a oposição
de setores religiosos e de
grupos antiaborto.
Quanto aos alimentos transgênicos,
a soja, plantada principalmente
no sul do país, está no centro da
polêmica dos OGMs. Introduzida
no Brasil nos anos 90, ela é resistente
a pragas e pesticidas, o que
aumenta a produtividade e reduz
os custos. Os ambientalistas são
seus mais ferrenhos críticos.
A polêmica está longe de acabar,
e a desinformação da sociedade
alimenta e prolonga esse
processo. Embora sancionada
há mais de dois anos, a Lei de
Biossegurança continua no papel.
Venerando S. Oliveira, físico formado pela
Unicamp, é educador, autor de material
didático, professor e coordenador do ensino
médio e de cursos pré-vestibulares.

A clonagem terapêutica pode dar origem às chamadas células-tronco embrionárias. Tais células, por meio de divisões sucessivas, podem gerar qualquer um dos mais de 200 tipos celulares de nosso corpo, representando esperança para o tratamento ou cura para muitas enfermidades. Células-tronco adultas, como as da medula óssea, podem gerar muitos tecidos, mas não todos. Isso justifica tamanho interesse pelas células-tronco embrionárias.
Para obter tais células, é preciso retirá-las de um embrião com cerca de 5 dias de idade, interrompendo seu desenvolvimento. Isso gera muita resistência, sobretudo de correntes religiosas, que alegam que essa interrupção provoca a morte do embrião. Para a ciência, no entanto, ainda não existe vida no embrião. Biologicamente, considera-se o início da vida quando surge o sistema nervoso, o que acontece somente no final do primeiro mês de gestação. Há então um grande impasse, pois clínicas de reprodução humana eliminam os embriões não-utilizados. A mesma sociedade que aceita tal eliminação não permite que esses embriões sejam utilizados para fornecer as células-tronco para as pesquisas. Em tais pesquisas, a clonagem terapêutica gera células-tronco do paciente que são injetadas no órgão doente, esperando-se que se transformem nesse tecido. Tal técnica não apresenta rejeição, além de ser menos traumática que transplantar um órgão inteiro.
A partir disso, abre-se
caminho para o tratamento de doenças cardíacas, degenerativas, paralisia
de membros por danos na medula espinhal, entre outros casos.
Todo esse repertório de novos conhecimentos traz promessas de
melhoria da qualidade de vida, mas levanta também conflitos éticos e
religiosos. A legislação está sendo criada, e tanto legisladores quanto
sociedade devem conhecer tais assuntos, pois serão chamados a decidir
sobre o futuro da biotecnologia e suas implicações para todos nós.
O principal
marco da
clonagem foi
o nascimento
da ovelha
Dolly, anunciado
em 1997.

